Saberes Populares sobre Hydromedusa maximiliani (Mikan, 1820) (Testudines, Chelidae): uma abordagem no entorno de uma Unidade de Conservação urbana em Minas Gerais

Alessandra Rezende Pereira, Thiago da Silva Novato, Robson Henrique de Carvalho, Iara Alves Novelli, Bernadete Maria de Sousa

Resumo


Hydromedusa maximiliani (Mikan, 1820) (Testudines, Chelidae) é uma espécie de Testudine de água doce endêmica da Mata Atlântica brasileira. Conhecido como cágado-pescoço-de-cobra, pode ser encontrado nos cursos d’água da Reserva Biológica Municipal Santa Cândida (RBMSC), uma área urbana protegida, que auxilia na qualidade ambiental de Juiz de Fora, MG. Como a relação de populações humanas com esta espécie de tartaruga ainda é pouco investigada, esta pesquisa objetivou realizar uma análise dos saberes populares sobre H. maximiliani no entorno da RBMSC. Foram realizadas 22 entrevistas semiestruturadas com moradores do entorno da RBMSC, constatando-se que 13 moradores conhecem a espécie, suas características e sua biologia, porém a maioria demonstra desconhecer os usos alimentares e medicinais de espécies de cágados. Também foi possível registrar uma relação conflituosa da população com a Reserva pela retirada de recursos, como bambu e madeira, e ocupação do território. Assim, conclui-se que a relação da população local com o cágado era mais intrínseca ao passado e que o conhecimento e uso dessa espécie vêm sendo perdidos ao longo das gerações, principalmente devido ao avanço da urbanização. Assim, estratégias de conservação que incluam os moradores do entorno da RBMSC são fundamentais para sua proteção


Palavras-chave


Áreas Protegidas; conflitos socioambientais; etnobiologia; répteis; tartaruga de água doce

Texto completo:

PDF

Referências


ALBUQUERQUE, U. P.; et al. Methods and Techniques in Ethnobiology and Ethnoecology. 2. ed. Nova Iorque: Humana Press, 2019. 342p.

ALVES, A. G. C.; SOUTO, F. J. B.; LEITE, A. M. Etnoecologia dos cágados-d’água Phrynops spp. (Testudinomorpha: Chelidae) entre pescadores artesanais no açude Bodocongó, Campina grande, Paraíba, Nordeste Do Brasil. Sitientibus Série Ciências Biológicas, v. 2, n.1/2, p. 62-68, 2002.

ALVES, R. R. N. Relationships between fauna and people and the role of ethnozoology in animal conservation. Ethnobiology and Conservation, v. 1; n. 2, p. 1-69, 2012.

ALVES, R. R. N.; ALBUQUERQUE, U. P. Ethnozoology: Animals in our lives. 1. ed. Londres: Academic Press, 2018. 552 p.

ALVES, R. R. N.; ROSA, I. L.; SANTANA, G. G. The role of animal-derived remedies as complementary medicine in Brazil. BioScience, v. 57, p. 949–955, 2007.

ALVES, R. R; VIEIRA, W. L. S; SANTANA, G. G. Reptiles used in tradional folk medicine: conservation implications. Biordiversity and Conservation, v. 17, n. 8, p. 2037-2049, 2008.

ALVES, R. R. N.; et al. A review on human attitudes towards reptiles in Brazil. Environ Monit Assess, v. 184, n.11, p. 6877–6901, 2011.

BAILEY, K. Methods of social research. 4 ed. Nova Iorque: The Free Press, 1994. 588 p.

BEGOSSI, A.; RICHERSON, P. J. The animal diet of families from Búzios Island (Brazil): an optimal foraging approach. Journal of Human Ecology, v. 3, p. 433–458, 1992.

BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Lei no 9.985, de 18 de julho de 2000. Institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza e dá outras providências.

CARPENTER, C. C.; FERGUSON, G. W. Variation and evolution of stereotyped behavior in reptiles. In: GANS, C.; TINKLE, D. W. (Ed.). Biology of the reptilia: Ecology and Behavior. Londres: Academic Press, 1977. V. 7, p. 335-554.

CHAGAS, A. C. S.; RAPOSO-FILHO, J. R. Biologia do comportamento de Hydromedusa Maximiliani (Mikan, 1820) (Testudines: Chelidae) na Reserva Biológica Santa Cândida em Juiz de Fora - MG. Bioscience Journal, v. 15, n. 2, p. 15-23, 1999.

CONWAY-GÓMEZ, K. Effects of human settlements on abundance of Podocnemis unifilis and P. expansa turtles in Northeastern Bolivia. Chelonian Conservation and Biology, v. 6, n. 2, p. 199-205, 2007.

COSTA, H. C.; et al. New Distribution Records and Potentially Suitable Areas for the Threatened Snake-Necked Turtle Hydromedusa maximiliani (Testudines: Chelidae). Chelonian Conservation and Biology, v. 14, n. 1, p. 88–94, 2015.

COSTA-NETO, E. M. Faunistic resources used as medicines by an afro-brazilian community from Chapada Diamantina National Park, State of Bahia, Brazil. Sitientibus, n.15, p. 211-219, 1996.

COSTA-NETO, E. M. “Barata é um santo remédio”: introdução à zooterapia popular no estado da Bahia. Feira de Santana: UEFS, 1999. 103 p.

CRISTO, S. S.; et al. The trade of Kinosternon scorpioides on Marajó island, Brazilian Amazon: from hunting to consumption. Herpetological Journal, v. 27, p. 361-367, 2017.

DE POURCQ, K.; et al. Understanding and Resolving Conflict Between Local Communities and Conservation Authorities in Colombia. World Development, v. 93, p. 125-135, 2017.

FACHÍN-TERÁN, A. Preservação de quelônios aquáticos com participação comunitária na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, Amazonas, Brasil. In: CAMPOS-ROZO, C. ULHOA, A. (Org.). Fauna Socializada: tendencias en el manejo participativo de la fauna en América Latina. Bogota: Fundación Natura, 2003, v. 3, p. 145-176.

GANDOLFO, E. S.; HANAZAKI, N. Etnobotânica e urbanização: conhecimento e utilização de plantas de restinga pela comunidade nativa do distrito do Campeche (Florianópolis, SC). Acta Botanica Brasilica, v. 25, n. 1, p. 168-177, 2011.

GERALDO, W. M. de J. A reestruturação urbana pós-fordista de Juiz de Fora. 2014. 271 páginas. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Universidade Federal Fluminense, Niterói.

GUIMARÃES, E.; PELLIN, A. BiodiverCidade: desafios e oportunidades na gestão de áreas protegidas urbanas. 1. ed. São Paulo: Matrix, 2015. 200p.

HAYS, T. E. Utilitarian/adaptationist explanations of folk biological classification: some cautionary notes. Journal of Ethnobiology, v. 2, p. 89-94, 1982.

HUNN, E. S. The utilitarian factor in folk biological classification. American Anthro- pologist, v. 84, p. 830-847, 1982.

ICMBIO-RAN. Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Répteis e Anfíbios. 2009-2011. Disponível em: . Acesso em: 24 mar. 2020.

ICMBIO. Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção: Volume I. 1. ed. Brasília, DF: ICMBio/MMA. 2018. 492 p.

IUCN. Red List of Threatened Species. Version 2016. Tortoise & Freshwater Turtle Specialist Group 1996. Hydromedusa maximiliani. Disponível em: . Acesso em: 23 mar. 2020.

JUIZ DE FORA. Lei n.º 6910, de 31 de maio de 1986. Dispõe sobre o ordenamento do uso e ocupação do solo no Município de Juiz de Fora.

KIMIYWE, J.; WAUDO, J.; MBITHE, D.; MAUNDU, P. Utilization and medicinal value of indigenous leafy vegetables consumed in urban and peri-urban Nairobi. African Journal of Food, Agriculture, Nutrition and Development, v. 7, p. 1–15, 2007.

LIMA, A. F. B. Dieta, forrageamento, morfologia e uso de microhábitat de Enyalius perditus Jackson, 1978 (Squamata, Leiosauridae) na Reserva Biológica Municipal Santa Cândida, Juiz de Fora, Minas Gerais. 2005. 84 páginas. Dissertação (Mestrado em Comportamento e Biologia Animal) - Instituto de Ciências Biológicas, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora.

MARQUES, J. G. W. Pescando pescadores: etnoecologia abrangente no baixo São Francisco alagoano. São Paulo: NUPAUB-USP, 1995. 285 p.

MENEZES, P. da. C. e. Raising the priority of urban areas in protected area systems in Brazil and beyond. In: TRZYNA, T. (Ed.). The Urban Imperative: Urban Outreach Strategies for Protect Areas Agencies. Sacramento: California Institute of Public Affairs, 2005. 168 p.

MCSHANE, T. O.; et al. Hard choices: making trade-offs between biodiversity conservation and human well-being. Biological Conservation, v. 144, p. 966–972, 2011.

MORCATTY, T. Q.; VALSECCHI, J. Social, biological, and environmental drivers of the hunting and trade of the endangered yellow-footed tortoise in the Amazon. Ecology and Society, v. 20, n. 3, p. 1-10, 2015.

NASI, R.; TABER, A.; VAN VLIET, N. Empty forests, empty stomachs? Bushmeat and livelihoods in the Congo and Amazon Basins. International Forest Review, v. 13, p. 355–368, 2011.

NOVATO, T. S.; SOLDATI, G. T.; LOPES, J. The Agroecology Power: How the environmental representation and management of leaf-cutting ants by peasants from Assentamento Dênis Gonçalves can be transformed. Ethnobiology and Conservation, v. 9, n. 26, 2020.

NOVELLI, I. A.; et al. Alimentary habits of Hydromedusa maximiliani (Mikan, 1820) (Testudines, Chelidae) and its relation to prey availability in the environment. Herpetology Notes, v. 6, p. 503-511, 2013.

NOVELLI, I. A.; et al. First occurrence of Spirocamallanus sp. (Nematoda, Camallanoidea) in a freshwater turtle, Hydromedusa tectifera (Cope, 1869) (Testudines, Chelidae), from Brazil. Herpetology Notes, v. 7, p. 599-602, 2014.

NOVELLI, I. A; SOUSA, B. M. Proposta Preliminar de educação ambiental para a preservação do cágado Hydromedusa maximiliani (Testudinata, Chelidae) na Reserva Biológica Municipal Santa cândida, Juiz de Fora, MG. In: XI Seminário de Iniciação Científica da UFJF. 2004.

NOVELLI, I. A; SOUSA, B. M. Análise descritiva do comportamento de corte e cópula de Hydromedusa maximiliani (Mikan, 1820) (Testudines, Chelidae) em laboratório. Revista Brasileira de Zoociências, v. 9, p. 43-50, 2007.

NOVELLI, I. A; SOUSA, B. M. Hydromedusa maximiliani (Brazilian Snake-necked turtle). Recent hatchling body mass and size. Herpetological Review, v. 39, p. 344-345, 2008.

NOVELLI, I. A; SOUSA, B. M.; DIAS, I. C. A. Hydromedusa maximiliani (Brazilian Snake-necked Turtle) algal colonization. Herpetological Review, v. 40, p. 336-336, 2009.

NOVELLI, I. A.; VIEIRA, F. M.; SOUSA, B. M. Hydromedusa maximiliani (Brazilian Snake-necked Turtle) grooming behaviour. Herpetological Review, v. 40, p. 435-436, 2009.

PEÑALOZA, C. L. O.; HERNÁNDEZ, R.; ESPÍN, L. B.; CROWDER; BARRETO, G. R. Harvest of endangered ideneck river turtles (Podocnemis spp.) in the middle Orinoco, Venezuela. Copeia, v. 2013, n. 2, p. 111-120, 2013.

PRADO, H. M.; MURRIETA, R. S. S. A Etnoecologia em perspectiva: origens, interfaces e correntes atuais de um campo em ascensão. Ambiente & Sociedade, v. 18, n. 4, 139–160, 2015.

PFJ. 2018. Prefeitura Municipal de Juiz de Fora. Sistema Municipal de Planejamento do Território – SISPLAN. Disponível em: . Acesso em 23 abr. 2020.

PEZZUTI, J. C. B.; et al. Uses and taboos of turtles and tortoises along Rio Negro, Amazon Brasin. Journal of Ethnobiology, v. 30, n. 1, p. 153–168, 2010.

RAFAEL, L. M. Considerações sobre a seleção de Áreas Protegidas, o Planejamento Sistemático da Conservação e a escala de abordagem. In: XVII Simpósio Brasileiro de Geografia Física Aplicada e I Congresso Nacional de Geografia Física, p. 1214-1223. 2017.

REDFORD, K. H. The Empty Forest. BioScience, v. 42, n. 6, p. 412-422, 1992.

ROCHA, C. F. D.; et al. Répteis e sua conservação no Estado do Rio de Janeiro. In: BERGALLO, H.G.; et al. (Eds.). Estratégias e ações para a conservação da biodiversidade no Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Instituto Biomas, 2009. Cap 13, p. 183-191.

SALVIO, G. M. M. Áreas Naturais Protegidas e Indicadores Socioeconômicos: o desafio da conservação da natureza. 1. ed. Jundiaí: Paco Editora, 2017. 216 p.

SANDRONI, L. T.; CARNEIRO, M. J. T. “Conservação da Biodiversidade” nas Ciências Sociais Brasileiras: uma revisão sistemática de 1990 a 2010. Ambiente & Sociedade, v. 19, n. 3, p. 21-46, 2016.

SCHAAN, D. Long-term human induced impacts on Marajó Island Landscapes, Amazon Estuary. Diversity, v.2, p. 182-206, 2010.

SEYLER, B. C.; et al. Understanding knowledge threatened by declining wild orchid populations in an urbanizing China (Sichuan). Environmental Conservation, v. 46, n. 4, p. 318-325, 2019.

SHANAHAN, D. F.; et al. Toward improved public health outcomes from urban nature. American Journal of Public Health, v.105, p. 470-477, 2015.

SILVA, G. O. “Tudo que tem na terra tem no mar”: a classificação dos seres vivos entre os trabalhadores da pesca em Piratininga, Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: FUNARTE, Instituto Nacional do Folclore, 1989. 90 p.

SILVA, R. H.; et al. Human mnesic performance in a survival scenario: the application of the adaptive memory concept in ethnobiology. Ethnobiology and Conservation, v. 6, n. 9, p. 1-6, 2017.

SOANES, K.; et al. Correcting common misconceptions to inspire conservation action in urban environments. Conservation Biology, v. 33, n. 2, p. 300–306, 2019.

SOINI, P. Ecologia y manejo de quelonios acuáticos en la Amazonía peruana. In: FANG, T.; BODMER, R.; AQUINO, R.; VALQUI, M. Manejo de fauna silvestre en la Amazonía. UNAP/ Un.; Florida/UNDP, 1997. p. 167-174.

SOLDATI, G. T.; ALBUQUERQUE, U. P. Are the evolutionary implications of vertical transmission of knowledge conservative? Ethnobiology and Conservation, v.5, n. 2, p. 1-9, 2016.

SOLIKUA, O.; SCHRAML, U. Making sense of protected area conflicts and management approaches: A review of causes, contexts and conflict management strategies. Biological Conservation, v. 222, p. 136 – 145, 2018.

SOUZA, F. L. The Brazilian Snake-necked Turtle, Hydromedusa maximiliani. Reptilia, v. 40, p. 47 – 51, 2005.

TURREIRA-GARCÍA, N.; et al. Diversity, knowledge and use of leafy vegetables in Northern Thailand - maintenance and transmission of ethnobotanical knowledge during urbanisation. Natural History Bulletin of the Siam Society, v. 62, n. 1, p. 85–105, 2017.

VOGT, R. C.; et al. 2015. Avaliação do Risco de Extinção de Hydromedusa maximiliani (Mikan, 1825) no Brasil. Processo de avaliação do risco de extinção da fauna brasileira. ICMBio. Disponível em: . Acesso em: 25 mar. 2020.

VOGT, R. C.; et al. 2015. Avaliação do Risco de Extinção de Phrynops geoffroanus (Schweigger, 1812) no Brasil. Processo de avaliação do risco de extinção da fauna brasileira. ICMBio. Disponível em: . Acesso em: 08 mai. 2020.

VOGT, R. C.; et al. 2015. Avaliação do Risco de Extinção de Chelus fimbriata (Schneider, 1783) no Brasil. Processo de avaliação do risco de extinção da fauna brasileira. ICMBio. Disponível em: . Acesso em: 08 mai. 2020.

YOUNG, J. C.; et al. The emergence of biodiversity conflicts from biodiversity impacts: characteristics and management strategies. Biodivers Conserv, v. 19, p. 3973–3990, 2010.




DOI: http://dx.doi.org/10.22276/ethnoscientia.v5i1.312

Apontamentos

  • Não há apontamentos.


Direitos autorais 2020 Ethnoscientia

ISSN 2448-1998

www.ethnoscientia.com